O que é ser rico?

Que pergunta!

Eu quase sempre faço esta pergunta quando encontro com um novo potencial cliente ou quando estou palestrando. Geralmente eu não a respondo, deixo que os outros falem. O meu objetivo é ouvir o entendimento que as mais variadas pessoas têm sobre esta questão. Ao se deparar com a pergunta “o que é ser rico?”, as respostas sempre são dadas a partir de 2 frentes principais. Uma busca um número para a riqueza, que pode ser uma soma grande em dinheiro ou uma renda mensal considerável. A outra frente é mais filosófica e genérica. Tem a ver com o que você é e não apenas com o que você tem. Eu gosto desta segunda “versão”, mas também creio que seja impreciso não considerar a parte matemática e mais racional da riqueza. Com isso em mente, mas ainda com a mania de ouvir os outros para iniciar um bom papo, perguntei a minha esposa em um jantar a sós (momento raro com uma menina de 2 anos e outra com 1 mês de vida) a famosa pergunta: o que é ser rico?

Eis que juntos chegamos a uma definição simples, mas não simplista. A nossa definição foi: “Ser rico é viver bem”… Tão amplo quanto pode parecer. Claro que com esta resposta abrimos uma avenida de subjetividade, afinal de contas, o que é viver bem? Pode significar “zilhões” de coisas, mas como este texto é direcionado para um contexto de pessoas que vivem em um ambiente primordialmente urbano, democrático e organizado a partir do capital, ou seja, capitalista, os 5 pontos abaixo expressam a minha visão do que é viver bem no contexto da pergunta: “o que é ser rico?”

1. Invista sempre, mesmo que um pouco, mas sempre.

Sem delongas. É fundamental investir sempre, ou seja, desde a primeira renda. Não há segredo aqui, tampouco subjetividade. Há apenas o entendimento da força dos juros compostos. Por quanto mais tempo alguém expõe seu dinheiro aos efeitos dos juros compostos, maior será a quantia no futuro. Um exemplo clássico que usamos na LifeFP™ é a comparação do Jão com o João e com o Seu João. O Jão é um cara jovem, com 30 anos de idade quando começa a poupar R$1.000 por mês. Aos 39 ele para de poupar, ou seja, poupou por 10 anos sem falhar um mês sequer. Ao final destes 10 anos Jão acumulou um dinheiro bacana, cerca de R$163.000 (para efeitos de simulação eu considero uma rentabilidade de 0,5% ao mês). A estória de João é um pouco diferente. João começa a poupar aos 40 anos de idade. Também poupa R$1.000 todos os meses, mas poupa até os 65 anos de idade. João poderia ter iniciado aos 30 mas decidiu “curtir” a vida e… afinal de contas… a vida começa aos 40. Aos 65 anos e com a mesma rentabilidade simulada de 0,5% ao mês, João chega na quantia de cerca de R$ 693.000! Nada mal! Mas a estória não acaba por aqui, temos também o Seu João. O Seu João começou a investir aos 50 anos de idade e assim o fez até os 65. Também poupou R$1.000 todos os meses e aos 65 anos, 15 anos após iniciar a sua caminhada chegou no valor de cerca de R$290.000. Então temos o seguinte:

Jão: investe dos 30 aos 39, 10 anos, R$1.000 por mês e chega em R$163.000 ao final dos 10 anos.

João: investe dos 40 aos 65, 25 anos, R$1.000 por mês e chega em R$693.000 ao final dos 10 anos.

Seu João: investe dos 50 aos 65, 15 anos, R$1.000 por mês e chega em R$290.000 ao final dos 10 anos.

Quem teve a melhor estratégia?

Um olhar “menos cuidadoso” pode afirmar que o João que começou aos 40 e soma R$693.000 aos 65 anos… Mas repare no seguinte: Jão, o “cara dos 30” apenas parou de poupar aos 39, eu não disse que ele resgatou o investimento. Ao deixar os seus R$ 163.000 sob efeito dos juros compostos, Jão terá R$ 732.000 aos 65 anos de idade… E isso se ele não investir mais um centavo sequer entre os 40 e os 65 anos… Creio que esta seja a verdadeira agenda para validar o senso popular que “a vida que começa aos 40”. Agora, e se Jão continuar a investir os mesmos R$ 1.000 todos os meses até os 65, o que acontece? Ele terá cerca de R$1.432.000 as 65 anos de idade, “apenas” R$ 739.000 a mais do que o João. E ai, vale a pena começar a investir cedo e investir sempre?

Possível resposta: “Pode até valer a pena financeiramente mas e se eu tiver que deixar de “viver a vida” para poder poupar, vale a pena?”

Eu afirmo a resposta: Não! Não vale a pena. Você tem razão… Agora, o que é “viver a vida”? Será que é uma coleção das coisas que compramos ou será que é mais a coletividade das experiências que vivemos? Viver a vida também é buscar tornar-se a melhor versão do que você pode ser. Faz sentido “vagar” por 70-80-90 anos apenas para ser o que os demais esperam que você seja? Pondere isso com profundidade… Eu acredito que não. Poupar te traz um benefício financeiro evidente, mas também te entrega algo muito mais valioso do que uma soma de dinheiro expressiva. Poupar é o resultado da disciplina e do bom hábito. É resultado de uma agenda intencional e não ocasional e estas são características predominantes em pessoas que usam o tempo para tornarem-se a melhor versão de si mesmas. Poupar é um sub-produto do “tornar-se melhor”. Você não se torna melhor por poupar, poupar te faz uma pessoa melhor.

 

2. Ter flexibilidade para mudar o rumo de sua vida

Em minha breve carreira de 9 anos como Planejador Financeiro Pessoal eu encontrei muita gente que me inspirou grandiosamente, mas também encontrei um bom número de pessoas que precisavam de inspiração para mudarem suas vidas. Muitos clientes chegam com uma agenda financeira, ou seja, uma agenda “clássica” do ponto de vista das Finanças Pessoais. Desejam aprender sobre o dinheiro para basicamente 3 objetivos principais: (1) Reduzir dívidas para aprender a gastar melhor para depois começar a poupar (2) Organizar os gastos para começar a poupar e (3) otimizar os investimentos que já possuem. São todos objetivos atingíveis e na grande maioria dos casos, teoricamente, os clientes recebem o que procuram. Cedo ou tarde, ao engajarem-se com o processo, saem das dívidas, começam a poupar e otimizam os investimentos. Pronto! Trabalho entregue!… Não em minha visão. Cabe ao verdadeiro planejador inspirar os clientes a buscar ser a melhor versão de si mesmos e muitas vezes isso não é uma verdade na vida do cliente, mesmo com todas as finanças organizadas e otimizadas. Diversas vezes me deparei com clientes financeiramente sólidos, mas emocionalmente fragilizados por estarem vivendo uma agenda que não era a “própria agenda”, mas sim a agenda que outros esperavam dele. Clientes que corriam atrás do dinheiro e na mesma corrida se afastavam do que gostariam de se tornar… Alguns alcançaram o dinheiro, mas perderam-se no caminho. Isso é riqueza?

Eu acredito que uma vida rica é uma vida que nos permite entender que precisamos fazer aquilo que precisa ser feito, mas que também podemos e devemos realizar estas coisas em sintonia com aquilo que desejamos nos tornar. Muitas vezes, para mudar o rumo da sua vida, você precisa de uma estruturação financeira previa, ou seja, buscar o dinheiro, mas cuidado para não se perder nesta corrida. Não deixe de estabelecer o fim antes mesmo da largada, ou seja, se há a necessidade de uma quantia de dinheiro que te permita transitar entre atividades profissionais, ótimo que haja um plano para isso, mas melhor ainda se houver um número final para esta quantia de dinheiro e que haja, principalmente, pessoas queridas que te ajudem a lembrar do propósito desta corrida. O homem só tende a se perder em sua soberba. É fundamental ter alguém que nos lembre de nossas próprias limitações. Sem um plano e sem alguém é quase impossível ter a flexibilidade para mudar o rumo de sua vida.

 

3. Trabalhar em algo que tenha um propósito

Ainda sobre flexibilidade, a corrida do dinheiro e uma vida que te permite ser a melhor versão de si mesmo: Você trabalha em algo que tem um propósito maior do que a sua remuneração no final do mês? Pense bem e pense sem pressa sobre isso.

A maioria de nós começa a trabalhar aos 20 e poucos anos e termina por volta dos 65. Vamos carimbar 40 anos de uma vida laboral. Durante estes 40 anos é bem provável que você passe mais horas do seu dia com alguém relacionado a sua atividade profissional do que com a sua família e/ou amigos. É algo muito significativo em nossas vidas e a ausência de uma reflexão profunda acerca disso é negligenciar a si mesmo. Eu não tenho a pretensão de te mostrar o caminho para encontrar uma atividade com propósito, mas não omitirei a minha singela opinião. Ponto principal: Não tem nada a ver com o que você deseja fazer com a sua vida, não tem nada a ver com as suas metas pessoais, com paz de espírito e nem mesmo com a sua felicidade. É muito maior do que o seu próprio sucesso. Eu já li diversos livros que sugerem maneiras para encontrar o seu propósito, alguns até com traços de livros de finanças pessoais e todos podem ser classificados como obras de “auto-ajuda” pois todos partem de uma abordagem “auto-centrada”, ou seja, centrada em você, em sua vida, em seu propósito, em seus sonhos, em seu, seu, seu… Em si mesmo… A fórmula é basicamente a mesma em todos: Estabeleça seus valores, escreva seus sonhos, traduza-os em metas/objetivos, priorize, dê o primeiro passo, persista, tenha disciplina, não tenha medo de revisitar alguns objetivos, adapte-se, signa em frente e tenha sucesso. Esta fórmula funciona? Funciona! É uma boa fórmula para ter sucesso, mas sucesso e encontrar o seu propósito são coisas diferentes. O sucesso é uma agenda “auto-centrada”, o propósito é uma agenda “maior-centrada”. Esta agenda maior centrada é muitas vezes preenchida quando você se dedica mais ao outro do que a si mesmo… Reparem, não estou recomendando a anulação do “eu”, mas sim a ampliação do “outro” para a maturidade do “eu e o outro”.

A busca por um trabalho que te dê dinheiro é geralmente infrutífera. Te motiva a mentir para si mesmo e para outros e te desloca de uma vida com propósitos. Pode te levar a ter dinheiro e estar rico, mas será que te faz uma pessoa rica, de fato?

Como descobrir o seu propósito? Não é uma agenda horizontal, ou seja, não são outras pessoas que te ajudarão com isso, não são livros, não são palestras, seminários ou qualquer outro tipo de interação horizontal. Aponte a sua pergunta para o eixo vertical, ore sobre isso. O seu propósito já está cravado antes mesmo de você nascer. Interações horizontais servem para preencher o seu propósito, mas não para revelar.

 

4. Amar alguém.

Não há uma vida rica sem amar alguém e isso tem uma ligação com a reflexão acerca do propósito. Da mesma maneira que um propósito não é “eu-centrado”, uma vida rica precisa ser “outro-centrado”. Amar alguém é o principal caminho para o desenvolvimento desta agenda. Estar com alguém que você ama amplia a sua capacidade de sonhar e limita a sua capacidade de fazer escolhas que no fundo se mostrarão equivocadas. Esta ampliação dos sonhos com a limitação das escolhas te permite perceber que faz mais quem decide fazer menos, que tem mais quem decide ter menos e isso é um traço fundamental para uma vida rica. Percebemos que somos capazes de ser / fazer / ter algumas coisas quando reconhecemos que somos incapazes de ser / fazer / ter todas as coisas. Estar com alguém que amamos e nos ama é como ter um eficiente “filtro” que nos lembrar de ser menos “en-si-mes-ma-dos” e como é geralmente na agenda “auto-centrada” que tomamos más decisões, isso ajuda (e muito!) na construção consecutiva de uma agenda de riqueza, tanto na parte financeira quanto na parte emocional… Aqui você pode pensar: “Você escreve isso pois não é casado com o meu cônjuge… Ele(a) mais sabota do que edifica a minha riqueza”… Uau, isso é “pano pra manga”, tema para um texto dedicado mas compartilho um simples modelo que tem tudo a ver com riqueza no contexto do amar alguém.

Este modelo é um triângulo entre o dinheiro, a intimidade e o diálogo.

A intimidade é a ponta que mais sofre quando existe um problema nas outras 2 pontas, o dinheiro e o diálogo.

O dinheiro é o que geralmente causa os problemas nas outras 2 pontas, a intimidade e o diálogo.

É reservado ao diálogo o privilégio e a responsabilidade de ser a ponta que resolve os problemas com a intimidade e com o dinheiro no contexto de uma aliança.

Assim, cabe ao casal que se ama recorrer ao diálogo para que a sabotagem vire edificação. Por quê é que muitas vezes o diálogo não dá certo? Pois casais gastam muito tempo discutindo sobre quem está certo e quem está errado que se esquecem do que é certo e do que é errado. Quer fazer o diálogo dar certo? Basta “des-ensimesmar-se.”

 

5. Ter um plano de Vida que contemple os 5 pontos acima.
Último ponto e sem este… Esqueça os 4 acima. Nada funciona se você não desejar que funcione, mas este desejo não pode ser solto ao acaso, precisa ser intencional e não ocasional. É preciso um plano para ser rico, para viver bem, para investir sempre, para ter flexibilidade, para encontrar o seu propósito e para amar alguém… Mesmo para amar alguém… Um bom relacionamento é aquele no qual intencionalmente nos concentramos para dar certo, para fazer certo, para surpreender, e isso vale também para a riqueza, para o ser rico.

Sem um plano as chances de não dar certo são menores… Pode até funcionar, mas seria uma obra do acaso e eu não creio que fomos feitos para o acaso… Talvez o nosso principal propósito seja ter um plano. O livro de Gênesis mostra isso. Deus sabia exatamente o que criar depois que algo fora criado e antes de outra coisa ser criada. Havia um plano ordenado para a criação. Há um plano ordenado para a sua riqueza, basta você se ocupar com isso… Agora, você pode pensar…Eu não acredito nisso!… Você tem razão! Ou então pode pensar…Eu acredito nisso! Você também tem razão… A questão é: No que é que você acredita?

 

Com carinho, André Novaes

Nota do Autor: Escrevi este texto há alguns anos e hoje eu o reescreveria com apenas uma definição do o quê é ser rico. Esta definição é: ser rico é reconhecer o seu papel de protagonista como co-criador de SMV. Eu tenho vivido a minha vida com esta inspiração e vigor e te convido a “beber da mesma fonte”. Clique aqui para ler o manifesto que escrevi com o objetivo de contribuir para a criação de Uma Nação de Pessoas em SMV. Junte-se ao movimento!