Se existe um efeito colateral positivo nessa crise toda que estamos vivendo, é o aprendizado. É nos momentos de dificuldade que amadurecemos, e lições aprendidas com sacrifício são as mais duradouras. Mas, sinceramente, me preocupa a forma como o brasileiro tem lidado com o aperto atual. O fim da década passada foi marcado por uma forte crise que abalou os Estados Unidos e a Europa. A recessão e o desemprego despertaram em seus cidadãos a percepção de que seu comportamento consumista precisava ser repensado. E o consumo desenfreado foi sendo substituído pelo consumo consciente. Essa mudança de comportamento permitiu que essas economias mantivessem “a roda girando”, e hoje já vemos, com maior impulso nos EUA, sinais de recuperação.

Por motivos que não vale a pena discutir aqui, passamos hoje por situação parecida (recessão e desemprego, agravados pela inflação resistente), mas não sei se não estamos contribuindo para criar um perigoso círculo vicioso. Nos países ricos, a população passou a se perguntar do que realmente precisava antes de consumir, mas não deixou de consumir. Isso levou a indústria a se reposicionar, buscando oferecer mais daquilo que as pessoas perceberam que os atendia. Vejo como exemplo maior a indústria automobilística americana. Quando é que poderíamos imaginar aquelas “banheiras” tão ao gosto deles sendo substituídas por compactos mais baratos, econômicos e “limpos”. Isso tem acontecido porque o consumidor de lá vem aprendendo a se perguntar “do que é que eu realmente preciso?” com mais frequência.

Já por aqui, o que vemos é uma postura meio “esquizofrênica” do consumidor. As vendas desabaram, levando as fábricas a demitir em massa, decretar férias coletivas e suspender contratos de trabalho, tentando reduzir o encalhe. Isso acontece porque muita gente deixa de comprar mesmo quando precisa comprar. Por outro lado, quando compra continua se deixando levar por um raciocínio (se é que se pode chamar assim) pouco coerente. Na contramão dos países mais desenvolvidos, por aqui a participação dos carros de baixa cilindrada, mais econômicos, menos poluentes e menos tributados vem caindo a cada mês, enquanto os mais potentes, equipados e beberrões ganham mercado.

E já perdi a conta de quantas vezes ouvi justificativas do tipo: “comprei com juro zero”, “a prestação era um pouco mais alta, mas cabia no bolso”, vou pagar por mais anos, mas dá para pagar a perder de vista”, “era uma oferta muito boa, e eu mereço o carro dos meus sonhos”. Trocando em miúdos, o brasileiro não perde a oportunidade de perder oportunidades! Essa seria a hora de exercitar o fim do desperdício gerado pelo consumo compulsivo, procurando a melhor compra, se perguntando qual é a nossa real necessidade em um automóvel, e fazendo o nosso dinheiro valer. Se mais gente fizesse isso, talvez a indústria automobilística se visse obrigada a se reposicionar, ao invés de simplesmente demitir ou interromper a produção. Afinal, ainda temos a chance de sair dessa crise melhor do que entramos. Só depende de nós.

 

Atenciosamente, Ricardo Schwalfemberg.

 

Nota do Editor: Crises! Melhor com, ou melhor sem elas? Sem leviandades: eu também sofro com crises, mas quando me silencio e reflito, encontro traços de minha melhor versão que emergiram nos tempos de crise que passei. Aprender a encarar as crises com uma perspectiva redentora (como nos ensinou Victor Frankl) é o centro da segunda narrativa que faz parte de um roteiro que desenhei para a SMV. Você pode conhecer mais sobre este roteiro (5 Narrativas) clicando aqui e lendo o manifesto que expõe a minha visão amplificada para uma Nação de pessoas vivendo na melhor versão do que podem.